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Histórico do Dr. Saulo – Núcleo de Iporá

Comecei aos 13 anos. Levado por meu pai, Perito Criminalístico (carteira de polícia nº 005) prestei um concurso e comecei meu primeiro trabalho da vida no DPT da SSP-GO (Para quem não sabe, DPT é – ou era na época – Departamento de Polícia Técnica). Ali conheci pessoas espetaculares, mergulhei em um mundo fascinante – o mundo de meu pai – de perícias e provas. Datilografei laudos, acompanhei técnicas de balística, conheci o desenho e a fotografia policiais, aprendi os termos técnicos, mergulhei no método de Vucetich – classificação decadactilar – e na papiloscopia. Enfim, passei a fazer parte de algo que comecei a amar e admirar. De quebra corria nas folgas até os fundos da SSP, onde ficava a Medicina Legal, e acompanhava (quando deixavam) alguns procedimentos. Vi um grande mestre, Dr. Aristoclides Teixeira, trabalhar algumas vezes. Vivi assim por 5 anos. Então, aos 18 anos, já cursando Medicina pensamos que seria melhor estar na Secretaria da Saude, e para lá fui. Mas o vírus da Perícia já tinha me contaminado (Na realidade tinha sido transmitido de berço por meu pai e eu apenas não sabia), e nunca deixei de querer voltar. Em 1991 aconteceu um concurso para Médico Legista e, mesmo contra a vontade de minha amada esposa, participei. Com os concorrentes que tinha nunca imaginei passar.

Entretanto acabei ficando com a melhor nota do estado, e ingressei novamente, desta feita como Médico Legista, no serviço pericial. Comecei a trabalhar em Iporá, em um projeto pioneiro de descentralização da Polícia Técnica. Embora fossemos dois os médicos aprovados no concurso, já no primeiro mês minha colega foi transferida e fiquei sozinho como Médico Legista, respondendo por toda a região. De repente caiu em minhas costas a chefia da então Circunscrição de Polícia Técnico Científica (Só a chefia… gratificação não existia.) Sozinho, salvo pequenos períodos, tenho continuado desde então. Sempre trabalhamos no Interior com o que tínhamos e com a quantidade de profissionais que dispúnhamos, dividindo o mês pelo numero de peritos e de legistas. Assim, se haviam dois, cada um fazia 15 dias. Se três, cada um fazia 10 dias. Se apenas um, como fiquei por vários e vários anos, fazia os 31 dias do mês. Já vivi situações as mais estranhas nesse serviço. Carreguei cadáveres diversas vezes em meus carros (não tínhamos Rabecão), fiz necropsias em enfermarias, posto de saúde, sala de caldeiras, lavanderias e outros lugares. Pulei em covas, descobri troca de cadáveres, sofri com podrões, comprei material para trabalho e usei na mesma noite naquele que me vendeu (um dia conto…). Na realidade, aqui em Iporá, somente eu como Legista, trabalhava com um bisturi, um porta-agulhas, uma pinça dente-de-rato e duas pinças anatômicas que compunham meu kit de técnica operatória na faculdade de medicina.

Além disso, apenas luvas grossas de serviços gerais, um avental de plástico (feito de sacos de leite, alguém se lembra??), muita disposição, olhar arguto, coração na profissão e cabeça preparada com horas e horas de Genival, Hermes e outros menos votados. Toda a minha vida fiz Medicina Legal com bisturi, olhos, cabeça e coração. Nossa Circunscrição era um balcão na Delegacia onde eram feitos os atendimentos para Carteira de Identidade. Com muito sacrifício consegui que fosse concluída uma construção no fundo da cadeia, onde seria nossa sede. Quando concluída, como éramos subordinados ao Delegado, descobrimos ao tentarmos mudar que alí funcionaria a Delegacia Regional, e sobrou-nos duas salinhas. Não dispúnhamos de viatura. Inúmeras vezes desloquei-me para as cidades da região (não tínhamos IML, o legista ia com o Perito e o motorista além do Auxiliar de Necrópsia –quando tinha – até onde o cadáver estava e realizava a necropsia onde fosse possível) em meu carro particular (primeiro uma Brasilinha, depois uma Pampinha) e incontáveis vezes transportei nelas os cadáveres. Para encerrar a era da Brasilinha e da Pampinha tive uma ideia genial. Em um dia em que fomos a uma cidadezinha perto de Iporá ví um Chevette sobre cavaletes. Guardei, classifiquei, memorizei. Em outra ocorrência, em outra cidade (essa eu lembro: Doverländia) ví uma viatura Chevette igualzinha à primeira, sobre as rodas, toda torta e meio virada sob uma mangueira.

Dois mais dois igual a três e pouquinho… com esforço e coragem chegaremos a quatro.

Fui até a SSP, procurei o Secretário que me mandou para o responsável pela coisa e… eis-nos pois orgulhosos depositários de duas lindas sucatas de viatura.
Começa o trabalho. Um mecânico amigo, excelente mecânico ajudou-nos. De duas viaturas conseguiu fazer quase uma. No quase entro eu e o nosso motorista e maior entusiasta (afinal ele teria algo para dirigir, não é?). Caras de pau devidamente lubrificadas com óleo de peroba, com uma lista de peças nas mãos passamos a visitar as prefeituras e os comerciantes. Pecinha aqui, pneu ali, tintinha acolá… de repente temos a primeira viatura da Polícia Técnica de Iporá.

Muito bem. O bravo Chevetinho prestou-nos grandes serviços e suportou estoicamente até mesmo quando fomos de Iporá a Diorama (cidade a aproximadamente 30 Km) de quarta acelerada, berrando o motor, até que, na volta, quase chegando em Iporá, nosso motorista descobre que a viatura tinha quinta marcha. Mas tudo bem, tudo ótimo.
Nossos colegas peritos, heróis, sempre desenvolveram um trabalho de alto nível, exemplar, de destaque, mesmo sem condições de trabalho adequadas.
Com muita dificuldade também, e com apoio da Superintendente da época, conseguimos adequar uma sala de velório como IML e uma casa (anteriormente ocupada pelas escrivãs, que graças a Deus casaram… ) como a sede de nosso NRPTC.

Recebemos viaturas, APIS, computadores, pessoal…

Hoje vivemos uma realidade muito diferente daquela. Hoje temos uma estrutura mínima de trabalho.
Após a emancipação da Polícia Técnico Científica muita coisa melhorou.

Hoje sou Médico Legista de Classe Especial. Nunca pensei chegar a tanto. Sou só um legistinha meia boca do interiorzão de Goiás. Mas fico emocionado. Fico feliz. Cheguei onde meu Pai estava. Tenho certeza que – dentro das minhas imensas limitações – honrei o nome desse Perito até hoje querido e lembrado, o Sr. Abner Menezes, meu saudoso pai. Sinto-me realmente muito feliz. Não sei se algum dia servirei de exemplo a alguém, como meu pai foi para mim, mas sinto hoje que todo o trabalho valeu a pena, tão somente para poder homenageá-lo mantendo o seu nome vivo e em um nível mínimo respeitado no serviço pericial de Goiás.

Sou médico legista de Classe Especial, filho e herdeiro de um Perito Criminalístico muito Especial, com e além da Classe. Com muita honra.

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