Edileuza Bragastini: uma vida dedicada à Polícia Científica

Fonte: A A A

Após 27 anos de trabalho, Edileuza Rodrigues de Souza Bragastini adiou a própria aposentadoria, para assegurar que o Núcleo de Polícia Técnico-Científica da Cidade de Goiás tivesse uma transição tranquila. Antes disso, porém, se dedicou intensamente à profissão que escolheu, fez amigos e colecionou centenas de boas histórias.

Ela ingressou no serviço público como datiloscopista da Polícia Civil de Goiás em 1991; em 2004, com a criação da Superintendência de Polícia Técnico-Científica, teve que aceitar novos desafios e deixou de mexer apenas com Carteiras de Identidade para aprender uma nova profissão.

Nascida e criada na Cidade de Goiás, teve que se dividir entre a cidade natal e a capital, Goiânia, por um ano, período em que aprendeu a trabalhar na perícia externa. Entre idas e vindas, um dia dormiu ao volante. O susto foi enorme mas coincidiu com a abertura do Núcleo de Polícia Técnico-Científica na cidade histórica, em 2005. Edileuza não pensou duas vezes e aceitou o convite para trabalhar na Cidade de Goiás. Lá, fazia de tudo: dirigia viatura, recolhia corpos, fazia tarefas administrativas, sempre com entusiasmo.

Equipe após uma reprodução simulada

Equipe após uma reprodução simulada

“Eu gosto da polícia, gosto da segurança pública, sempre gostei. Sou apaixonada pelo que faço ! Gosto de saber, de investigar e de ir à locais de crimes”, conta e acrescenta que tentou ser delegada. Não foi aprovada nos concursos mas continuou se sentindo realizada, afinal, sempre atuou na área da segurança pública.

Em agosto de 2007 foi convidada a assumir a gerência do Núcleo Regional de Polícia Técnico-Científica da Cidade de Goiás e lembra que eram poucos os servidores: onze apenas. “A gente tinha que se desdobrar, fazer de tudo um pouco. Esse tudo, incluía, além do trabalho propriamente dito, o contato com a população e a parceria com as polícias”, lembra, se referindo às polícias civil e militar. Ela recorda que o fato de ser filha da cidade facilitou o contato com os militares, delegados e agentes. “Sempre houve muito respeito, muita colaboração e isso é muito importante. Essas relações interpessoais contam na hora de realizar um bom trabalho”

Quanto à população, ela diz que é preciso ter sensibilidade para tratar com o sofrimento alheio. “As pessoas tem muita resistência, principalmente com o IML. As famílias querem o corpo imediatamente e sofrem com muita intensidade. Elas até entendem que precisamos de tempo para fazer o nosso trabalho mas, ainda assim, há quem ache uma maldade”, explica.

Edileuza comunica a aposentadoria no fim de maio

Edileuza comunica a aposentadoria no fim de maio

Casada há mais de 20 anos com um engenheiro e farmacêutico italiano, Edileuza tem bastante intimidade com a cultura europeia e, por esse motivo, as comparações são inevitáveis. Segundo ela, o brasileiro é expansivo demais, até no sofrimento e, também por questões culturais, sente necessidade dos ritos de transição (velório, enterro, cremação, missa de 7º dia) o quanto antes. “Na Europa, o enterro demora até uma semana”, conta.

À frente do Núcleo da Cidade de Goiás, ela comemora o fato de ter conseguido ser uma líder. “Ser chefe é fácil, qualquer um pode ser, mas liderar é mais complicado”. O segredo, nas palavras dela, é se colocar no lugar do outro. “Temos que ter empatia e saber conversar. Até o assunto mais difícil pode ser tratado com delicadeza, sem agressão, sem estresse”, ensina. Motivar as pessoas também é um dos segredos. “A gente precisa descobrir o que faz cada um querer dar o seu melhor. Na maior parte das vezes é reconhecimento, em outras é atenção”.

O carinho dos colegas

O carinho dos colegas

Reconhecimento e votos de felicidade

Reconhecimento

 

 

Elogios

Elogios

 

 

Amor à profissão

Amor à profissão

 

 

 

 

 

Ao mesmo tempo em que lembra do quantitativo reduzido daquela época, comemora a chegada de novos profissionais. Ela se refere à recente nomeação e posse de peritos, auxiliares de autópsia e médicos legistas com grande satisfação. “Vai melhorar demais ! Vai melhorar o atendimento à população, o reconhecimento da categoria, a qualidade de vida do servidor”, enumera.

Para que a saída de Edileuza fosse tranquila e a transição acontecesse sem crises de continuidade, ela adiou a aposentadoria por 2 meses. Oficialmente, começou a descansar no fim de maio mas, na realidade, ficou na ativa até o início de julho.

Transição tranquila

Transição tranquila

O objetivo era tornar o caminho o mais tranquilo possível para a sucessora, a perita criminal Jéssica Ferreria Batista. De 2007 até agora, Edileuza teve a “ajuda preciosa” de Cláudia Ferreira e Dinaira da Costa Silva. Do mesmo modo que contou com as duas, quer que Jéssica conte com ela. “Quero deixar tudo organizado, funcionando, caminhando sem atropelos”, explica.

O conhecimento é mais que bem vindo, afinal, gerenciar um Núcleo requer atenção a fatos que, para quem não ocupa um cargo de chefia, podem passar despercebidos. O gerente precisa estar atento a tudo: às escalas de trabalho, à manutenção e abastecimento de veículos, à manutenção do prédio (o que inclui contas de água, energia elétrica, telefone), aos equipamentos e materiais de trabalho, ao cumprimento de horários e tarefas… “A verdade é que temos que estar atentos a tudo”, resume.

A atenção é necessária até para perceber o que, nem sempre, pode ser explicado. Um exemplo disso é a quietude que antecede os dias de trabalho intenso, geralmente nos feriados prolongados. “Não sei o motivo mas o interior tem esse fenômeno. Durante dias não acontece nada, depois, acontece tudo de uma vez: atropelamento, afogamento, suicídio, assassinato, arrombamento…”

 

Histórias

 

Nesses 27 anos de trabalho, foram muitas e incontáveis histórias. Em todas, profissionalismo, paixão e sensibilidade. Edileuza Bragastini diz que guarda todos os casos na memória. “É só começar a falar que eu me lembro, volta tudo, até os detalhes”. A empolgação faz parte dos relatos e, mesmo ciente de que parte do seu trabalho não é nada fascinante para a maioria da população, ela é só entusiasmo. Como o dia em que ela conseguiu coletar, com perfeição, as digitais de um corpo já em decomposição. “Eu vesti “a luva” e consegui pegar todas. Nossa, foi maravilhoso !”  A luva, no caso, era a pele de uma das mãos do cadáver. Ela conta que é preciso puxar com cuidado, pelo pulso, e depois, vestir a pele na própria mão enluvada.

Outro caso do qual se orgulha, foi durante a perícia de um grave acidente na estrada, com seis corpos. Segundo ela, os corpos foram despedaçados e o médico legista, que também foi ao local, não conseguiu segurar as lágrimas. “Consegui acalmá-lo e tomei a frente. Juntei mão com mão, pé com pé, atenta a todos os detalhes pra nenhuma parte ser trocada. Nossa, fiquei muito feliz com o resultado”, lembra.

O acidente que matou o jogador de futebol Fernandão e outras quatro pessoas, em junho de 2014, também é lembrado em detalhes por Edileuza. Ela foi avisada ainda de madrugada e teve mais uma prova de que contava com uma excelente equipe. “Até quem estava de folga se ofereceu para trabalhar. O caso teve uma repercussão enorme e tudo foi muito rápido. Pude contar com os peritos, médicos, motoristas, todos”. A autópsia dos corpos foi feita no cemitério da Cidade de Goiás, com o cuidado de sempre redobrado. Por se tratar de uma pessoa pública e muito querida, havia o medo de que vazassem fotos. “Da minha equipe, eu sabia que não sairia nada mas, ainda assim, redobramos os cuidados”.

Ela fala de tudo com respeito e naturalidade. Diz que não deixa a emoção interferir no trabalho mas admite que, quando precisa autopsiar o corpo de uma criança, chora. “Não tem jeito, criança a gente chora, emociona mesmo”, conta. Essa sensibilidade fez com que providenciasse um pote, todo enfeitado, recheado de balas e pirulitos, para as crianças que passam por exame de conjunção. As guloseimas ajudam a atenuar o sofrimento dos pequenos e humanizam o atendimento.

Carinho com as crianças

Carinho com as crianças

A profissional esfuziante só perde um pouco da alegria quando fala da aposentadoria. “Perdi o sono mesmo”, confessa. Apesar do sofrimento, ela sabe que precisa viver mais essa etapa e já faz planos. Casada há 23 anos e sem filhos, ela pretende se dedicar mais ao marido, o companheiro dessa jornada profissional tão intensa. De agora em diante, vai se dividir entre o Brasil e a Itália. De lá, ela e o marido tem planos de fazer uma viagem de moto de 12 mil quilômetros. “Queremos ir até a Noruega”, conta. Ela também pretende fazer um curso de fotografia e um mestrado em Direito, área na qual é bacharel.

Quando confirmou a aposentadoria, foram muitas as mensagens de amor, respeito e reconhecimento. “Não tenho como agradecer tanto carinho, tanta consideração. Sempre vou ser grata pelas oportunidades que tive e pelo apoio que recebi. A Rejane (superintendente da SPTC) então, está sempre atenta e eu sempre pude contar com ela. Fiquei feliz com todas as mensagens, com todas as manifestações de respeito e carinho. Aprendi muito e posso dizer que foi muito gratificante”, fala.

Razão e sensibilidade

Razão e sensibilidade

Votos de felicidade

Votos de felicidade

 

 

 

 

 

 

 

Todas as mensagens a fizeram lembrar de sua trajetória e também da infância pobre, na Cidade de Goiás. Criada em fazenda, Edileuza lembra que a família raramente comia carne e os pais trabalhavam muito para sustentar ela e os irmãos. Ainda criança ela decidiu superar aquela condição. “Eu nunca me conformei com aquela situação de carência extrema. Eu decidi que ia estudar e trabalhar, estudar e trabalhar, pra superar aquilo”, lembra.

Realizada na profissão, ela acredita que a polícia técnico-científica só tem a crescer nos próximos anos. Ela aposta nos avanços tecnológicos, no espírito de corpo dos servidores, no respeito e reconhecimento da população e na qualificação dos profissionais. “O nosso trabalho, como o próprio nome diz, é baseado em ciência e eu prevejo um futuro próspero e brilhante para a instituição”.

Mas nem tudo são flores. Ela acredita que algumas dificuldades estão por vir. Segundo ela, a Itália passou pela mesma crise que o Brasil passa agora e, 20 anos atrás, fez as mesmas reformas – econômica e trabalhista. “E ainda assim, a crise continua. Não são essas reformas que vão resolver. Ser servidor público já foi muito bom, eu peguei essa fase. Não sei se vai continuar assim, tão bom, para os que estão chegando. Eu espero estar errada…”

Ela aproveita e dá um conselho aos novatos: façam o melhor. Nas palavras dela, o Estado é lento, burocrático e confuso, mas o servidor pode fazer a diferença, na medida em que se dedica individualmente e reivindica coletivamente.

Amizades eternas

Amizades eternas

É hora de dar tchau...

É hora de dar tchau…

Sentimentos intensos

Sentimentos intensos

 

Nuovo dolce vita

 

Os servidores da SPTC – ao mesmo tempo em que lamentam a aposentadoria da colega – torcem para que Edileuza Bragastini seja muito feliz nessa nova fase. A Superintendente – Rejane Barcelos – é só admiração e gratidão pela colega. “Uma batalhadora, uma guerreira, dedicada, super competente, uma pessoa rara, preciosa, merecedora de todo reconhecimento”.

Sem religião mas com muita fé e um declarado apreço pelo budismo, Edileuza diz que “o que tem que acontecer, acontece. No momento em que a gente se movimenta, a vida acontece”. Os colegas da SPTC, sem exceção, lhe desejam Complimenti ! Salute e felicità !

 

 

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